Mudanças climáticas e pressão regulatória colocam a sustentabilidade no centro da estratégia do mercado segurador e revelam a circularidade como novo motor da cadeia de valor.

Quando a água baixa após uma enchente ou a fumaça se dissipa depois de um incêndio, uma segunda onda do desastre começa a se formar, pouco visível nas manchetes, mas altamente nociva ao meio ambiente. É a montanha de resíduos gerada pelo sinistro: eletrônicos queimados, móveis destruídos, eletrodomésticos irrecuperáveis.
Para o segurado, representa a perda de um bem. Para o mercado de seguros, marca o início de um dilema logístico, ambiental e ético que está redesenhando o setor.
As mudanças climáticas deixaram de ser projeções estatísticas para se tornarem vetores imediatos de transformação operacional. Eventos extremos recentes, como as enchentes no Sul, vendavais e queimadas no Centro-Oeste, escancararam uma nova realidade: para cada indenização paga, toneladas de resíduos são geradas. Sem uma logística reversa certificada, esse material, muitas vezes tóxico, acaba descartado em vias públicas ou lixões, contaminando solos e mananciais e alimentando o mesmo ciclo de degradação ambiental que intensifica novos eventos climáticos.
Nesse contexto, o descarte ecológico e a economia circular deixam de ser serviços acessórios para se consolidarem como pilares de resolução de sinistros, conformidade regulatória e reputação corporativa.
O desafio dos resíduos no Brasil
Dados do Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil 2025, da ABREMA, evidenciam a urgência de uma gestão profissional e integrada. Das 81,6 milhões de toneladas de Resíduos Sólidos Urbanos geradas anualmente no país, mais de 28 milhões de toneladas ainda são destinadas a locais inadequados, como lixões a céu aberto e aterros controlados. O impacto é contínuo, com emissões de gases de efeito estufa, contaminação de mananciais e custos socioambientais elevados.
O cenário do lixo eletrônico é ainda mais crítico. Segundo o Global E-waste Monitor 2024, relatório da ONU, o Brasil ocupa a quinta posição entre os maiores geradores de resíduos eletrônicos do mundo e lidera na América Latina, com quase 2,5 milhões de toneladas anuais. O índice de reciclagem, porém, permanece em torno de apenas 3%.
O maior risco está na liberação de metais pesados. Quando a destinação final de um item sinistrado falha, o impacto foge ao controle e transforma uma assistência mal conduzida em um problema ambiental de longo prazo.
Regulação e responsabilidade compartilhada
Se a consciência ambiental não for suficiente para impulsionar mudanças, a pressão regulatória cumpre esse papel. No ano em que o Brasil sediou a COP30, Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas, a sustentabilidade ganhou ainda mais força institucional e visibilidade no setor, com o apoio da Casa do Seguro, criada pela CNseg, além da consolidação da Taxonomia Sustentável Brasileira e da atuação da Susep.
Por meio do Grupo de Trabalho Seguros, a autarquia vem alinhando o setor ao Plano de Transformação Ecológica do Governo Federal, estimulando produtos e serviços que fomentem a bioeconomia e a gestão responsável de riscos. Com esses novos modelos e regras, torna-se mais claro identificar quem atua de forma consistente e quem ainda pratica greenwashing.
Mas, afinal, de quem é a conta ambiental?
Para Eber Souza, diretor da Ecoassist, empresa especializada em soluções sustentáveis, a resposta está na legislação.
“A responsabilidade pelo descarte ambientalmente adequado é compartilhada entre todos os elos da cadeia: seguradoras, prestadores de serviço e o consumidor final. O descarte incorreto não é apenas um risco ambiental, mas também um risco reputacional e jurídico.”
É nesse ponto que a gestão especializada se torna estratégica. Ao assumir a condução do item sinistrado, a Ecoassist garante que todo o processo siga rigorosamente a Política Nacional de Resíduos Sólidos.
“Investimos em rastreabilidade e processos auditáveis justamente para mitigar esse risco compartilhado e assegurar o compliance das seguradoras”, completa o executivo.
Rastreabilidade e circularidade como estratégia de valor
A transformação do setor passa por converter toneladas de resíduos em ativos por meio de três pilares: economia circular, logística reversa e visibilidade de dados, traduzidos em serviços de descarte ambientalmente correto.
Até pouco tempo, as seguradoras perdiam o rastro de bens sinistrados logo após a coleta. Hoje, parcerias estratégicas com empresas especializadas permitem acompanhar todo o ciclo do resíduo, da retirada ao destino final, com rastreabilidade, certificações e indicadores de impacto. “As seguradoras passam a ter visibilidade completa do processo. Essa governança é o que comprova, na prática, a aderência às agendas ESG”, explica Eber Souza.
Na ponta da cadeia, o impacto é direto. “Cada item coletado deixa de exigir a extração de matéria-prima virgem. Falamos de menos mineração, menos emissões de CO₂ e mais inclusão produtiva, já que grande parte desses materiais movimenta a cadeia da reciclagem”, reforça Danilo Oliveira, especialista e coordenador da Ecoassist.
Os resultados comprovam a eficácia do modelo. Em operações recentes da empresa, mais de 20 mil toneladas de resíduos foram movimentadas, volume equivalente a cerca de 470 estádios do Maracanã lotados, evitando a poluição de solos e corpos d’água e promovendo o retorno desses materiais à indústria ou ao coprocessamento energético.
MAPFRE: liderança e visão 360º em ESG
A MAPFRE também consolidou iniciativas de economia circular que se conectam diretamente à gestão de sinistros e ao tratamento de resíduos gerados por veículos sinistrados. Um exemplo é o programa Second Life, que fecha o ciclo de vida das baterias de veículos elétricos em casos de sinistro total, permitindo o tratamento adequado dessas baterias, seja por meio de reciclagem ou reutilização.
Desde 2019, a companhia vem ampliando projetos internos sob a perspectiva de Resíduo Cero, com foco na redução da geração de resíduos, aumento do reaproveitamento, reciclagem e ações de combate ao desperdício. Globalmente, a MAPFRE administrou 5.023 toneladas de resíduos, dos quais 96% foram encaminhados para processos de recuperação, reciclagem ou produção de energia, um indicador forte de eficiência na gestão do ciclo de vida dos materiais gerados pela operação da seguradora.
No último ano, cerca de 675,84 toneladas de peças foram recuperadas para reaproveitamento após o tratamento de 2.175 veículos sinistrados, reutilizando componentes como plástico, alumínio e vidro para reduzir a necessidade de produção de novos materiais e evitar desperdícios.
No campo ambiental, a MAPFRE foi a primeira seguradora a assinar o Pacto por uma Economia Circular na Espanha e, no Brasil, materializa essa visão em diferentes frentes. A cobertura do seguro Casa Protegida, oferecida via varejo Casas Bahia, incorpora o descarte ecológico certificado pela Ecoassist e entre outros serviços sustentáveis disponíveis.
Esses programas ilustram como a economia circular pode ser aplicada de forma prática em seguradoras, reduzindo o impacto ambiental dos resíduos e também agregando valor operacional à gestão de sinistros, ao recuperar materiais valiosos e prolongar o ciclo de vida útil de componentes que, de outra forma, seriam descartados.
2026 e o avanço do consumidor consciente
A agenda sustentável ultrapassa o campo regulatório e acompanha a mudança no comportamento do consumidor. Segundo a pesquisa Sustentabilidade e Opinião Pública, da CNI, a disposição para adquirir produtos ambientalmente responsáveis, mesmo com custo um pouco mais alto, cresceu 5% entre 2022 e 2024.
Como destaca Roberto Muniz, diretor de Relações Institucionais da CNI: “As empresas perceberam, há anos, que a combinação entre inovação e sustentabilidade tem um papel essencial na descarbonização da produção. E que também é uma estratégia eficiente para atender a crescente demanda por bens e serviço de baixo impacto ambiental”
No setor de seguros, essa tendência já se materializa. Companhias como MAPFRE, Bradesco Seguros, Porto, Zurich, Tokio Marine, Capemisa, Unimed e Allianz incorporaram agendas ESG às suas operações. As assistências ecológicas deixaram de ser diferenciais competitivos para se tornarem parte do novo padrão do mercado.
O descarte ecológico no ciclo completo, do pré ao pós-sinistro, vai além de uma resposta à crise climática. Trata-se da construção de um ecossistema que indeniza perdas, previne danos ambientais e reduz novos componentes de risco.
Como pontua Eber Souza:
“Não falamos mais apenas de assistência, mas de propósito. É fechar o ciclo de responsabilidade e estabelecer um novo padrão de qualidade, medido pela capacidade de transformar todo o atendimento em um processo circular e transparente, abrangendo toda a carteira de serviços sustentáveis disponíveis no mercado, incluindo o descarte ecológico.”
A gestão de resíduos emerge como um dos principais palcos onde o futuro do clima, da reputação corporativa e da equidade social será decidido. Um diferencial com alto valor estratégico, capaz de mobilizar toda a cadeia de valor e garantir proteção integral ao segurado e ao meio ambiente, avançando para um futuro com sinistralidade cada vez mais rastreável e operações transparentes no mercado.